Arte & Cultura
Sonia
enviou
em 02/10/2009 18:55
Feijoada à mineira, Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond era safo, além de escrever muito bem,sacava de culinária. Nesse poema ele nos passa a receita de uma deliciosa feijoada com toda a sua” mineirice”. Eita trem bão!!! Eu adoro feijoada, mas só como com, carne seca, lombo, linguiça, costelinha. Pé de porco não gosto, sei lá por onde o p
Carlos Drummond era safo, além de escrever muito bem,sacava de culinária. Nesse poema ele nos passa a receita de uma deliciosa feijoada com toda a sua" mineirice". Eita trem bão!!! Eu adoro feijoada, mas só como com, carne seca, lombo, linguiça, costelinha. Pé de porco não gosto, sei lá por onde o porco passou e orelha, será que ele limpava com cotonetes. Rrsrsrsrssrsr, brincadeiras à parte, eu adoro uma boa feijoada.E você também gosta, me conte seu gosto e predileções. Beijos. Feijoada à Mineira Carlos Drummond de Andrade

Uma velha e perfeita cozinheira a quem pedi a fórmula sagrada
Da feijoada à mineira,
Mandou-ma. Ei-la: “Receita de feijoada –
Tome coisa de um litro de feijão Preto, novo, sem bicho,
E, depois de catado com capricho,
Jogue no caldeirão. (Com feijão que não seja preto
é à toa tentar fazer feijoada.
E se teimar, não cuide que sai boa;
Sai não valendo nada.)
Quando estiver o caldeirão fervendo
Ou antes, deite o sal,
As mãos de porco, orelhas e, querendo,
Focinhos e rabo; isto (está claro) tendo,
Porque não tendo é o mesmo, não faz mal.
Se, além desses preparos, deitar nela
Linguiça e mais um osso de presunto,
Só o cheiro da panela
Faz crescer água à boca de um defunto.
Eu já ia me esquecendo (que memória)
Da carne seca e da couve.
Feijoadas sem elas, qual! É a história…
Não há nem nunca houve.
Depois de tudo bem cozido, a ponto,
Machuque bem um pouco do feijão
E pronto.
Mas machuque só a parte que senão,
Em vez de feijoada sai pirão.
Eis, aí está o prato preparado…
Minto: falta ainda o molho
Que embora simples é o segredo o escolho
De muito bom guisado.
O molho faz-se com vinagre, ou então,
(Para sair a coisa mais completa)
com suco de limão
e bastante pimenta malagueta.
Sal, ponha quantum satis.
Não vai ao fogo nem ligeiramente,
Exceto se levar também tomates,
Cebola, ou outro que tal ingrediente.
Co/a feijoada, a clássica, a mineira
É compulsório o uso da farinha.
Como bebida, um trago de caninha.
Há quem regue o vinho; mas é asneira.
Quanto à caninha fala-se
Ou não se fale, a mim é indiferente.
Eu tenho a firme opinião que um cálice
Nenhum mal faz à gente.” Eis aí a receita.
Publico-a sem responsabilidade.
Experimentem, se sair bem feita
E eu, no dia, estiver nessa cidade…
Não insinuo nada:
Apenas lembro que ninguém rejeita
Convite para almoço de feijoada.
ANDRADE, Carlos Drummond de (org.). Brasil Terra e Alma; Minas Gerais

Essa postagem está de dar água na boca, Sonia!
Adorei! :)
Uma boa feijoada é realmente de tirar o chapéu. Obrigada por vir até aqui, é sempre uma alegria.Beijão
Linguiça e mais um osso de presunto,
Só o cheiro da panela
Faz crescer água à boca de um defunto.
Que maravilha de poema,não é??
Drummond dançava com as letras,poetava que era uma maravilha!!!!